David Cronenberg’s ‘Crash’

Crash2

Cronenberg trabalha num campo vasto e na maioria das vezes num campo repulsivo em que a histeria colectiva é abordada com excelência. O corpo humano está ali justamente para ser deformado, destruído e testado ao máximo nas suas múltiplas utilidades, abrindo assim portas para uma nova sexualidade, nascida a partir duma tecnologia pervertida.

A visão caótica de Vaughan invoca uma morte mundial num desastre de automóvel simultâneo, onde milhões de veículos se juntariam numa concentração fatal de sangue e óleo de motor esguichando. Vê o seu próprio reflexo num espelho manchado de sangue, sémen e vómito. A tecnologia distorcida do desastre de carro proporcionava a sanção para qualquer acto pervertido.

Até mesmo os gigantescos aviões descolando do aeroporto eram sistemas de excitação e erotismo cheios de sexualidade metálica, punição e desejo, à espera de infligir o corpo.

Um universo erótico dos motores regados a óleo e sémen, das pregas arregaçadas de aço retorcido, de ânus, vulvas e falos mecânicos, de escapes vertendo fezes e vómito, das engrenagens lubrificadas a sangue e dos pneus prestes a rebentar. Cronenberg invoca esse nada que nada mais é que o nosso próprio mundo, aquilo que chamamos de realidade social – “sociedade do espectáculo”, criando assim a sua forma imagética e avassaladora.

Em suma, um mundo movido a sexo e paranóia, onde qualquer demanda material pode ser satisfeita quase que instantaneamente, desde que se possuam recursos para tanto. Quanto mais consome o espectador alienado tanto menos “compreende sua própria existência e seu próprio desejo”.

CRASH não trata apenas do cataclismo que mata milhares e aleija milhões de seres humanos anualmente, enquanto as petrolíferas lucram arrancando das rochas a energia que fomenta esses e outros desastres, numa cadeia alimentar cujo predador máximo é a máquina e a presa é o próprio corpo.

Imprime em todos os circuitos electrónicos e cerebrais o fetiche tecnológico máximo: “o meu carro, o meu tesouro”, a face mais visível do sucesso nesse mundo de mercadoria descartável.

Na nossa cultura do simulacro, “é preciso ver no carro um “objecto – mulher” – objecto erótico, idealmente belo, submisso, manipulável, que agrupa “determinações ‘psico-sexuais’ profundas”

Lindas mulheres vendem carros perfeitos, mulheres perfeitas só se conseguem com lindos carros. O automóvel é o objecto de desejo e ao mesmo tempo caixão.

CRASH não é só uma imagem “sexualizada” do carro, mas uma metáfora total para a vida humana na sociedade actual: “CRASH é o primeiro romance pornográfico baseado na tecnologia”.

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