Let’s Get Lost de Bruce Weber

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Em Let’s Get Lost (1988) Bruce Weber não se deixa prender pelo suporte técnico do género do documentário biográfico para criar então uma obra cinematográfica coerente que invoca com sucesso questões sobre a condição humana e as suas relações interpessoais num compromisso entre o personagem, o realizador e o olhar do espectador.

Let’s Get Lost (1988) de Bruce Weber sugere a reflexão sobre o conceito da duração e instante, da continuidade do Tempo de Henri Bergson (1859-1941), o Tempo manifesta-se como um “todo”, como uma duração contínua – um ser virtual que se actualiza a cada momento – questões levantadas na relação entre as sequências de entrevista onde vemos Chet Baker de face enrugada, a viver os últimos anos de vida, e as sequências de arquivo onde vemos um Baker jovem, bonito e saudável. Bruce Weber testa a atenção do espectador sempre que muda o instante temporal e espacial do protagonista que vive num tempo incerto, algures entre os anos 60 e os anos 80.

O presente no filme é apenas um grau mais contraído do passado, não existindo “verdadeiramente”; o “instante” acaba por ser apenas uma abstracção, desprovida de “realidade”, o momento em que no conjunto de significados (imagens e sons) que formam o “todo” (o filme) a consciência do realizador elege um ponto de equilíbrio que sintetize uma expressão compreensível, compatível com o tempo externo e mecânico compartilhado com o nível de interesse do espectador pelo decorrer das acções.

Let’s Get Lost (1988) é uma colecção desses momentos instantâneos da vida de Baker marcados na película, onde diferentes instantes criam uma negação da técnica do instantâneo, devido à manipulação da montagem das sequencias emotivamente, temporalmente e espacialmente distintas, o instante só se produz nas parte do filme onde Chet Baker é “representado verdadeiramente” pelo olhar do espectador, através das experiencias vividas contadas de diferentes pontos de vista. Instantes esses onde a ambiguidade da realidade dos factos apresentados criam (ao espectador) uma noção inconsciente de uma provável verdade adulterada, que é obtida por uma justaposição mais ou menos hábil de fragmentos visuais e sonoros que fazem de Let’s Get Lost (1988) uma obra cinematográfica dinâmica.

Os dispositivos de entrevista propõem-se a criar com sucesso, momentos de constrangimento ao espectador, mesmo quando a verdade é constantemente posta em causa cena após cena, Bruce Weber consegue caracterizar Chet Baker, revelando as codificações semânticas (dos gestos, das posturas e de todas as “encenações realistas”) que vão formando o arco do protagonista aos olhos do espectador. Levantando questões quanto à integridade do carácter e à veracidade dos depoimentos de e sobre Chet Baker. O espectador é livre de criar a sua própria versão da “verdade” dos acontecimentos relatados. As imagens e os sons são usados para fornecerem o máximo de informações (emoções), sobre a realidade ambígua do personagem Chet Baker. Fornecem ao espectador uma quantidade de informação utilizando convenções representativas muito diferentes (como as sequencias dos cachorrinhos versus as histórias de como partiu os dentes, etc.) algumas cenas das quais causarão uma impressão/relação de conforto, desconforto, realismo, irrealismo, verdade ou falsidade, transportando desta forma o vínculo que o espectador tem com o material fílmico documental, para o campo do cinema de ficção, construindo uma reflexão sobre o a “veracidade do real”.

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Esta ideia de desconforto pelo “real” foi teorizada por André Bazin, um dos principais teóricos desse realismo ontológico, que separa a capacidade de instalar a ambiguidade, (a capacidade de nos levar de uma constatação a uma interrogação) da simples observação de quem está a usufruir do discurso em causa.

Bruce Weber procura então chegar ao espectador através de uma “nova espécie de realismo, onde as imagem que são captadas por uma câmara não passam de matéria-prima, para uma posterior manipulação” através das técnicas cinematográficas de captação e pós produção.

Se o realismo de uma imagem não está meramente relacionado com a quantidade de informação que ela transmite, uma imagem realista como as de Baker, dos amigos e das amantes, são as que facultam o máximo de informação pertinente, isto é, uma informação facilmente acessível ao espectador.

Na condição de escolher esses diferentes instantes informativos como aqueles que exprimem a essência dos acontecimentos, no intuito de caracterizar um protagonista “real”; é o que Gotthold-Ephraim Lessing refere no seu tratado Laocoon (1766) onde invoca o instante prenhe ou instante mais favorável, este é então definido como um instante que pertence ao acontecimento real que é captado no momento da representação, neste caso da representação “real/ficcional” de quem foi Chet Baker.

Os diferentes instantes da vida de Chet Baker são-nos exibidos sem ordem cronológica aparente, constate-se que, se por um lado permitem a representação do Tempo de um acontecimento concreto sem ser compelido a recorrer a legendas ou dispositivos de transição temporal, por outro, ao multiplicar as representações de instantes, prende a atenção do espectador formando uma linha condutora de raciocínio e escrutínio das diferentes personas representadas pelo ponto de vista de Bruce Weber, de Chet Baker, dos seus amigos, colegas de trabalho e amantes, gerando uma relação orgânica directa de sentido entre o Realizador, o Protagonista e o Espectador.

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