As diferentes condições de recepção do filme “Freaks” de Todd Browning ao longo do século XX

2

We accept her, one of us. We accept her, one of us. Gooba gooba, Gooba gooba, we accept her, we accept her. Gooba gooba, Gooba gooba, one of us; one of us.

Uma experiência única

Quando o ecrã se fecha depois de por ele terem passado os espectros dos deficientes que protagonizam o filme “Freaks” continuaremos a vê-los por muitos anos nas nossas memórias… É esta a minha experiência pessoal e a minha profecia a qualquer ser humano que seja espectador deste filme, e é por esta razão que “Freaks” é um filme de “culto”, tendo a devoção de um grupo a quem interessa e a quem suscita a devoção.

O que nunca esqueceremos neste filme são os olhares profundos dos deficientes, são as suas características diferentes e a maneira como as ultrapassam numa vivência saudável… porque por mais interessante que seja o enredo ninguém pára de se lembrar que aquelas pessoas existiram mesmo, que a sua actuação no filme é menos fingida do que a de qualquer outro actor… eles não podem esconder a sua condição diferente que os identifica como impares no primeiro olhar.

Na Contemporaneidade pós-cartesiana cada um de nós vive no limbo da sua individualidade, repartido entre a necessidade de se definir na identificação com um determinado grupo e na de se distinguir dos seus pares de forma a encontrar o seu “Eu”.  

Os freaks são o espelho da nossa condição e é isso que neles nos perturba. A sua imparidade foi definida à nascença e confronta-nos com a indefinição da nossa própria diferença. Sobe pelo nosso inconsciente o formigueiro da desconfiança: o que viemos fazer ao mundo? Deixaremos algum legado, alguma memória da nossa individualidade? O que é que temos de diferente?

A nossa comiseração em relação a eles revela-se uma completa farsa, o que temos nós que eles devam invejar? É difícil admitirmos que eles possam aceitar a sua condição pelo que ela é e viver na máxima felicidade de acordo com ela. É que eles têm de competir e ambicionar e não estão em igualdade de circunstâncias em relação a nós, pensa o nosso cérebro iludido por um coração que treme em admitir que em nada eles são diferentes de nós… que as suas limitações físicas e mentais existem em todos, duma maneira não tão visível, podendo levar uma vida para encontrar as suas fronteiras.

Principais Objectivos e Sinopse do Filme

A tese inerente ao filme que o torna apelativo para a novas audiências é a de que a diferença é apenas ao nível da aparência, e que aqueles que são fisicamente diferentes têm os mesmos sentimentos, inteligência e humor das outras pessoas. A sua natureza humana é tão real que Browning não procura paternalizá-los mostrando-os como inocentes de qualquer crime ou indefesos perante o mundo. Durante os anos de circo Tod Browning ganhou uma normal convivência com pessoas diferentes, e ao incluí-las no seu filme o seu realizador permitirá que elas representem um papel o quanto mais diferente ou igual à sua personalidade quanto desejarem. O realizador não pretende fazer um documentário mas uma obra de ficção com um enredo exemplar como o merecem os seus actores, muitos deles mais experienciados no mundo do espectáculo do que os actores “normais” do filme. Freaks aproveita ao máximo as potencialidades dos seus participantes tendo a intenção de não os menosprezar.

Esta intenção é clara no aviso prévio ao filme, num texto que corre o ecrã rodeado com gravuras de freaks e preparando-nos para o que deverá ser a nossa recepção da história:

Before proceeding with the showing of the highly unusual attraction, a few words should be said about the amazing subject matter. Believe it or not… Stranger as it seems, in ancient times anything that deviated from the normal was considered an omen on ill-luck or representation of evil…

For the love of beauty is a deep-seated urge witch dates back to the beginning of civilization. The revulsion with witch we see the abnormal, the malformed and the mutilated is the result of long conditioning by our fore fathers. The majority ok freaks, themselves, are endowed with normal thoughts and emotions. Their lot is truly a heart breaking one

They are forced into the most unnatural of lives. Therefore, they have built a code of ethics to protect them from the barbs of normal people. Their rules are rigidly adhered to, and the hurt of one is the hurt of all, the joy of one is the joy of all. The story about to be revealed is a story based on the effect of this code upon their lives. Never again will such story be filmed, as modern science and teratology is rapidly eliminating such blunders from the world.

With humility for the many injustices done to such people (they have no power to control their lot), we present the most startling horror story of the abnormal and the unwanted.

A mensagem é clara: todos os seres humanos têm o mesmo valor, com emoções e pensamentos para além do seu aspecto físico, o preconceito é o que nos leva a associá-los erradamente com uma ameaça. A novidade é o estatuto elevado que estes seres atingiram… Todd Browning pede a nossa tolerância em relação a um grupo que já atingiu este estado de aceitação dentro dele. A sua condição de nascença leva-os a um sentimento de união que deveria ser alargado a toda a humanidade, se ao menos pudéssemos seguir o seu exemplo de cooperação! Mas este não é um tema inocente, embora a maior parte das criaturas o seja. Um código de honra é inscrito no tema do filme de maneira a que a mensagem chegue afiadamente ao coração dos preconceituosos que teimam em gozar com a diferença. O destino que merecem será, pelo menos por uma vez, levado a público por Todd Browning sobre a forma de um conto moral! No lugar de medos inconscientes e míticos de figuras abstractamente disformes, Browning apresenta os supostos montros de carne e osso, na sua pior possibilidade de ataque, que não passa de uma defesa e cumprimento de justiça… O que temos nós a temer realmente? A identificação do filme é com os Freaks ou, na sua análise detalhada, com Phroso e Vénus, seus defensores, não com os mal feitores… a não ser que nos identifiquemos com as atitudes de Hércules e Cleópatra, e aí uma noite de pesadelos é um castigo merecido.

A seguir a este aviso passa-se o discurso do apresentador do freak show de que todos somos espectadores, que está prestes a nos mostrar a maior monstruosidade de todos os tempos, algo que foi em tempos uma bonita mulher, um pássaro dos ares e trapezista e assim se passa para a história de Cleópatra e do anão Hans que a adorava e que ela desprezava e ridicularizava até tomar conhecimento da sua fortuna, passando a procurar a sua afeição e um casamento que lhe permitisse herdar o suficiente para, depois de eliminar o anão, viver na abundância com o seu amante Hércules. Os amigos de Hans apercebem-se desta situação e procuram alertá-lo mas este só se apercebe de que Cleópatra só procura estar com ele por dinheiro quando, na sua festa de casamento, ela desrespeita a sua masculinidade e demonstra o seu desprezo por ele e por todos os freaks motivada pelo champanhe em excesso. Cleópatra, no entanto, procura desculpar-se e consumar o seu plano de se tornar viúva de Hans, envenenando-o lentamente sob a forma de um suposto remédio. Hans finge tomar o remédio e quando se encontra restabelecido confronta Cleópatra com a sua maldade, rodeado dos seus amigos do circo. Cleópatra paga pela sua ofensa e intolerância através da transformação em freak, perpetrada pela comunidade que a torna um deles, e é essa transformação que o apresentador do freak show que nos contou a história nos apresenta no fim: the chicken human.

A primeira metade do filme procura normalizar os freaks, vemos pessoas mal formadas na sua rotina quotidiana, realizando tarefas de maneira não usual, enquanto conversam com pessoas normais que têm sempre um carácter de estranheza, como se fossem eles próprios freaks, como é o caso da enorme estatura que Cleópatra aparenta quando anda nos cenários dos anões. Um exemplo das suas tarefas quotidianas é a cena em que Francess, a mulher sem braços, ouve um dos irmãos Rollo enquanto come a sua refeição com os pés.

Para que a simpatia para com os freaks seja clara Browning inclui uma cena bem esclarecedora, em que Mme Tetralini, a dona do circo, faz um discurso apaixonado sobre a tolerância necessária para com a diferença dos freaks. A cena passa-se num jardim para o qual a madame levou alguns “cabeças de alfinete”, “tronco vivo”, “homem esqueleto” e “metade homens” para brincarem livremente, quando são surpreendidos por dois cavalheiros, Madame faz um discurso em que denuncia a condição daqueles seres enquanto crianças e a sua diferença física um simples acidente de nascença.

Na segunda metade do filme a nossa comiseração é quebrada, curando-se o vírus da comiseração mesquinha para que realmente exista uma aceitação dos Freaks como nossos iguais. Desta forma a vingança dos Freaks é feita ao ar livre, com os deficientes a arrastarem-se consoante as suas possibilidades na direcção de Cleópatra, que olha para as facas na agonia de uma pré-violação provocada por aqueles símbolos do poder que eles finalmente terão sobre ela. Eles não são só crianças, e mesmo que fossem a protecção que lhes devemos nunca deve roçar o abuso.

freaks

Contexto Histórico e cinematográfico do seu lançamento

A confusão com a vida real provocada pela singularidade destes actores, que não poderiam representar outro papel senão o deles mesmos, leva-nos a este reflexo da nossa condição que pode ser demasiado brutal para o espectador que procura um filme alienante da sua rotina quotidiana, tal como a tradição Hollywoodesca instituiu como uma história cor-de-rosa em que nos identificamos com a personagem que idealizamos… esquecendo-nos o quão longe estamos dessa possibilidade.

O filme “Freaks” leva-nos no sentido contrário, só podemos identificar-nos com a comunidade de freaks abusados e maltratados e que exercem a sua vingança

No ano de seu lançamento, em 1932, o público não estava preparado para esta identificação. Sofrendo as consequências da crise de 1929, a pobreza e a montruosidade estavam nas ruas… o medo e a tristeza estavam sempre presentes excepto nos momentos de escape cinematográfico. A moral e a positividade tentavam ser instituídas nas mentes das massas, era necessário ganharem a confiança no consumo e na economia que os levasse a investir e consumir o suficiente de forma a restabelecer o velho ciclo. Era a pior das alturas para instituir uma auto-reflexão nas mentes confusas de quem tem de ter uma confiança dogmática num sistema que entrou em colapso na esperança que a sua condição melhore. O preconceito era o prato do dia, e Tod Browning foi a sua vítima.

Como se chegou ao ponto de realizar este filme? E a sua produtora foi a MGM, conhecida pelos filmes de família e alienantes nos parâmetros tanto mais hollywoodescos quanto possível! A resposta encontra-se na emergência do novo género cinematográfico do filme de horror, que ainda não tinha os seus cânones estabelecidos, levando Browning a arriscar esta versão. Foi o mesmo Todd Brownig que inaugurou este género com a criação do filme de terror “Drácula” pela Universal em 1931, que pela primeira vez não se preocupou em explicar o elemento sobrenatural da sua história de assustar, coincidindo com a passagem do cinema mudo para o cinema sonoro. O sucesso de bilheteira levou ao lançamento de “Frankestein” pela mesma editora no ano seguinte, cujos resultados nas bilheteiras foram novamente invejáveis. A fórmula de sucesso não podia ser monopólio da Universal e logo outras editoras se apressaram a comprar direitos para filmes de terror, como foi o caso da MGM e da arriscada contratação de Todd Browning para fazer uma versão do conto Spurs de para o ecrã.

Todd Browning tinha já créditos firmados no mercado cinematográfico graças à sua participação como assistente de realização no filme Intolerance de Grifith ou pela realização de filmes como TheUnknowned (1927), The Unholy Three (1925), e claro, Drácula (1930).

O Horror vigorou por estabelecer estratégias simbólicas da psique inconsciente em como lidar com as atrocidades da crise de 29 e com a crescente mediatização que potenciava a visão das monstruosidades humanas. Através da transformação dos medos e monstros humanos em figuras impossíveis do fantástico que acabam sempre destruídas no fim pela heroína, aliviando-nos dos nossos temores…

Todd Browning não tinha forma de adivinhar este secreto conforto das massas e passou das marcas criando o Freaks, permitido graças à sua precedência em relação ao Código de Produção de 1934 que estabelecia uma censura contra temas como o sexo ou religião, sobre a direcção de William H. Hays.

A sua visão talvez fosse no sentido do género dos musicais Gold Diggers, mas com os escravos rebentando as correntes no fim e provocando uma revolução, a dos freaks contra as pessoas normais que os oprimem, uma metáfora do funcionamento do mundo político em que o envenenamento de Hans simboliza o abuso do poder político e financeiro com consequências mortais. A mutilação de Cleópatra e Hércules é um acto de revolução contra aqueles que estão no poder, ao torná-los freaks a justiça social estaria alcançada.

A forma diegética ou narrativa do filme não é o que impõe a estranheza, o que o faz é a identificação com uma personagem colectiva de deficientes que são reais e não produto de maquilhagem e o twist identificativo que o espectador sofre durante as duas partes do filme…

6

A herança circense de Todd Browning

A metáfora parece ser mais fortemente psicológica e espiritual e não política. O passado de Todd Browning está ligado ao circo itenerante em diversos papéis como comediante, criador de números, actuante em números de ilusionismo. O circo foi a sua casa desde que saiu de casa muito novo, e é uma casa a que ele não se canse de fazer tributo… Ao fazer repetidamente o papel de uma maravilha humana que merecia ser vista Browning apercebeu-se da relatividade desta concepção, juntamente com a quantidade de pessoas peculiares que conheceu e dos diferentes sítios por onde passou, Browning desenvolveu um sentido de tolerância muito à frente do seu tempo. Os freak shows da altura expunham os deficientes como dignos de horror, mistério, assombro e medo… esta não é uma concepção saudável e Browning certamente que viu demasiadas situações de abuso financeiro de pessoas incapazes de se defenderem, e a analogia com a situação política é visível; mas Browning viu também muitas histórias de sucesso e são estas que ele relata em Freaks, juntando-lhe uma advertência contra aqueles que ridicularizam os seus pares que são diferentes.

Para a mentalidade contemporânea é facilmente compreensível como a situação mental ou física destas pessoas deficientes não é mais do que um acidente de nascimento ou uma disfunção hormonal, e o quanto elas merecem ser tratadas com respeito… mas no fundo a condição humana destas pessoas continua a suscitar uma confusão na nossa identidade. Em vez de corrermos para os vermos expostos como acontecia nos freak shows, procuramos escondê-los sobre o argumento de que estamos a abusar deles se tornarmos pública a sua miséria, implica estarmos a gozar com eles. Embora tenha sido positivo a passagem destas pessoas da esfera de famílias despreocupadas e incapazes para instituições que se comprometem em delas cuidar, há um carácter macabro na assunção de que elas têm de ser mantidas longe do olhar comum. Que podem elas provocar? Que nojos podem pessoas com comportamento moral irrepreensível causar ao vulgo humano?

Que o efeito é grandioso podemos facilmente verificar através das críticas ao lançamento do filme, logo em 1932. O New York Times avisa que Freaks não é um filme para crianças e que apresenta a dificuldade de se perceber se deve estar no Rialto, o seu lugar de estreia, ou num centro médico. O aconselhamento para o manter fora da observação por parte de crianças e adultos que não estejam saudáveis é reafirmado no próprio anúncio do filme no cinema Rialto. Mas as criticas dos grandes jornais e o sucesso de bilheteira não foram a causa da retirada do filme de exibição assim que acabou a zona de Nova Iorque. O maior preconceito veio da imprensa local, por exemplo referindo-se ao filme como nauseante e um espectáculo chocante que cria reacções mórbidas no público, não devendo ser mostrado em sítio algum. Organizações de pais e outras organizações especializadas na indignação moral formaram lobbies contra o filme e tiveram sucesso no seu boicote.

O filme permaneceu na sua indefinição de género, banido pela censura na maior parte dos países, como o Reino Unido. Os seus direitos entregues a Dwain Esper por 25 anos, que procurou dar um cunho moral incluindo uma última cena de desculpabilização e reunião amorosa de Hans, o que só fez o filme ter ainda mais uma confusão de género, não ajudando à sua comercialização.

Regresso do interesse pelo filme Freaks nos anos 60/70

Em 1962, no ano em que Todd Browning morreu, Freaks foi mostrado no Festival de Veneza e desde logo abraçado pela contracultura destas décadas, para quem o termo freak sugeria uma radical e democrática aliança com a auto-pronunciada individualidade e diversidade. Esta juventude rejeitava o conservadorismo político que pregava a divisão e secularização. A parada de oprimidos e incapazes rejeitados do filme sugeria um radical potencial de violência e revolução contra os gigantes e a normalização imposta pelo sistema capitalista.

A ideologia ocidental de abertura para as mais diversas individualidades de classes, raças, etnicidades, géneros e sexualidade foi o ponto necessário para que a obra fosse aceite.

Um acontecimento que tornou o filme mais pertinente nesse ano foi o nascimento de muitos bebés com mal formações devido à administração da droga Thalidomide às mães grávidas como prevenção contra complicações abortivas. A verdade é que estas mulheres foram experiências nas mãos das grandes coorporações farmacêuticas, lançando o debate sobre o natural e anti-natural e o Freaks parece endereçar-se a esta situação nas demonstrações de como estes actores ultrapassaram as suas dificuldades e se vingaram.

A conclusão é só uma, Todd Browning esteve à frente do seu tempo e a sua obra merece todo o crédito por ter aquele carácter intemporal das obras que, rejeitadas no seu contexto, vêm a ser largamente aceites num futuro mais ou menos longínquo, transparecendo as preocupações dessa época. Este status garantiu que para sempre haverá uma lição a retirar deste filme.

Depois de termos tornado repugnante e condenáveis as demonstrações públicas de deficientes físicos, tornámos aceitáveis os fenómenos de modificação do corpo no sentido da procura da individualidade, através, por exemplo, de piercings e tatuagens.

Os antigos freak shows deram lugares a demonstrações de habilidades estranhas, como engolir facas, cuspir fogo, engolir e regurgitar, expor tatuagens e piercings e todos os outros exemplos que possamos imaginar. O próprio conceito de Guiness não é mais do que a institucionalização da ideia de Freak, do mais diferente em algo.

A procura da individualidade e o ressurgimento do Freak foi a resposta necessária à mediatização crescente e à atomização da vida e da percepção. Dentro da massa os jovens procuram a diferença e a definição de si próprios.

Existe um tema que trespassa todo o filme e que deixou de ser um tema tão chocante chegados que estavam os anos da liberdade sexual: a misoginia. Não só Browning foi inovador na forma como abordou o tema da diferença física, como enquadrou o problema da sexualidade como uma forma de descriminação. Temos a metade mulher metade homem, temos a referência que Phroso faz da sua operação que o impede de ser totalmente homem, temos o caso das duas gémeas siamesas pegadas e dos problemas com os seus dois maridos, e temos o principal problema de sexualidade entre Hans e Cleópatra, um anão que se casa com uma pessoa normal.

O tabu da sexualidade é também um alvo deste filme e anda de mãos dadas com o freak. É uma das anormalidades condenáveis pela sociedade, não só a confusão sexual como também a bisexualidade, homossexualidade e poligamia. Um exemplo da descriminação que marcou o século XX foram os campos da morte nazis onde foram mortos, não só milhares de deficientes, como também “pessoas com comportamentos sexuais desviantes”.

A recepção contemporânea e futura desta obra

No começo do século XXI o filme Freaks exige uma nova análise que suplante o conteúdo politico e individualizante observado nas décadas de 60 e 70. Actualmente teremos de ponderar a emergência de um novo tipo de freakshow: os programas de televisão cada vez mais sensacionalistas.

O meio em que vivemos é cada vez mais o de um controlo panóptico. Quase todos as actividades da nossa vida se encontram estranha e perigosamente parametrizadas. A luta pela diferença e individualidade é um reflexo do espartilhamento a que estamos sujeitos, controlados desde o B.I. até aos cartões de crédito, passando pelas câmaras de segurança, polícia de trânsito ou escolaridade obrigatória. Se analisarmos a sociedade japonesa e o condicionamento que cada um dos indivíduos sofre desde tenra idade, que leva à maior taxa de suicídio infantil e juvenil, podemos ver o quanto o espaço para o diferente tem vindo a ser afunilado.

A constante análise psicológica e científica dos nossos comportamentos é hoje em dia conhecida como o “triunfo do terapêutico”, quase todos acreditamos precisar de aconselhamento médico e químico, porque somos vítimas do “Stress”, uma qualquer noção inventada à pressa para explicar a saudável revolta contra uma roda viva de responsabilidades e horários que não queremos!

Somado e interrelacionado com este fenómeno encontra-se a cada vez maior abrangência dos Novos Media, com uma difusão cada vez maior e um chamamento alienante e normativo implícito necessário para que se processe um consumo, alimentando um sistema com cada vez mais exigências e que não pode parar de crescer economiacamente ou entrará em colapso como em 1929.

O sensacionalismo não é mais do que a exploração de “freaks emocionais”, estatuto a que estão reduzidas todas as pessoas que tenham comportamentos desviantes ou sujeitos a uma terapêutica, provocados por causas exteriores como o condicionamento paterno e a falta de amor na infância. Estas pessoas têm lugar no horário nobre de qualquer canal de televisão e podem ser convidadas de qualquer talkshow; o nosso voyerismo tornou-se refinado, escondido por detrás de uma compaixão aparente. Talvez o melhor exemplo seja o formato “Jerry Lewis” em que, através da compaixão se espicaça o confronto que a audiência espera.

A actualidade e pertinência do filme Freaks na actualidade é um género de “tratamento” para este inconsciente social em que todos parecermos viver adormecidos, como bem nos expõe Walter Benjamin na sua obra “A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica”. Escondeu-se o feio e ele passou a não existir? Temos mulheres esqueleto como ídolos de beleza e elas deixam de ser magras? A única causa desta total confusão é a não percepção das motivações das nossas acções e no dia em que eu observar uma multidão a ver este filme sem lhe apontar o dedo do preconceito e do nojo, então teremos vencido as nossas hipocrisias interiores no sentido de uma nova tolerância.

Freaks é o mais antigo filme avant garde. Ele encontra.-se totalmente actual e o seu objectivo é melhor conseguido do que, por exemplo, o “Elephant Man” de David Lynch, encontrando-se talvez ao nível de “Eraserhead”, embora se encontrem em estilos de percepção diferentes e eu especialmente ache que Freaks tem maiores implicações. As pulsações interiores do nosso ser são mais acutilantes do que aquelas experienciadas pelos filmes de David Cronemberg, como é o exemplo “Videodrome”.

Toda esta magnifica potencialidade se deve a um facto apenas: a exposição de verdadeiros freaks. Como poderão eles ter uma energia tão forte? Será que o principal fenómeno não é só o da recepção mas também o da emanação de um especial tipo de energia proveniente da tolerância e aceitação do seu lugar no mundo?

Em relação a esta questão gostava citar quem o conseguiu exprimir melhor do que eu, Diane Arbus, fotógrafa que escolheu os Freaks como seu sujeito e que foi para isso inspirada por visionar Freaks de Tod Browning:

“There is a quality of legend about fraks. Like a person in a fairy tale who stops you and demands that you answer a riddle. Most people go through life dreading they will have a traumatic experience. Freaks were born with their trauma. They have already passed their test in life. They are aristocrats”

O nosso medo de passarmos por algo de terrífico faz-nos elevar a terrífico muitos dos eventos da nossa vida, ganhando pavor à vida e experienciando-a cada vez mais ou na segurança do nosso lar ou em experiências extremas com vista a lembrarmo-nos que a vida tem de ser vivida…

Na convergência destas duas tendências encontra-se a Arte do Avant garde da qual Freaks faz parte, embora completamente fora do seu tempo. Este tipo de Arte procura baixar a fasquia do que é terrível na Arte, o que é chocante, doloroso ou embaraçante de observar ou mesmo participar, no conceito crescente de Arte enquanto performance interactiva. Ao transgredir sempre os limites morais do terrível e chocante a Arte permite-nos confrontarmo-nos com o terrível da vida de forma a adormecermos os sentidos.

Esta é a forma saudável de lidar com a nossa sociedade e tornarmo-nos críticos e observadores do que se passa à nossa volta, evitando o choque profundo de toda a miséria que encontramos de forma a garantirmos que os nossos valores morais não precisam de ser corrompidos para que os olhos consigam manter-se abertos. É uma estranha maneira de lidar com a vida mas é a que nos leva à tolerância, porque quem já aceitou ver tudo imparcialmente já conseguirá olhar para a pluralidade de significâncias quotidianas e delas tirar, também, um sentido moral e um senso de irrelevância perante mais altos padrões de espiritualidade, calma e ideias interiores. A vida é uma ilusão e o stress desnecessário.

Artistas como Marilyn Manson ou performers como Fúria dels Baús vão neste sentido de misturar o freak com a vida e expor-nos às nossas pulsões inconscientes, no cinema temos o cinema vomitiff com o seu carácter nauseante (Shainsaw Massacre,etc) e correntes do inconsciente como David Lynch e David Cronemberg, mas até hoje ninguém o conseguiu tão completamente como Todd Browning com o seu filme Freaks e toda a bondade e calma que transparece duma pessoa como Schlitze.

Bibliografia

Hawkins, Joan; Cutting edge: art-horror and the horrific avant-garde; University of Minnesota Press, cop. 2000

Senn, Bryan; Golden Horrors: an illustrated critical filmography of terror cinema, 1931-1939; London;; McFarland and Company, cop. 1996

Cinema Vomitiff (não tenho as referâncias bibliográficas)

Savada, Elias; Todd Browning Filho da Noite; catálogo do ciclo da cinemateca portuguesa; 1984

French, Karl e Philip; Cult movies; New york; Billboard books; 2000

Edited by Christopher Golden; Cut! Horror writers on Horror film; New York; Berkley Books; 1992

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s